
O que você vai encontrar neste artigo:
Imagine a cena: você está numa fila do banco, numa sala de aula, numa calçada, e a pessoa ao seu lado cai no chão, o corpo se enrijece e depois começa a se sacudir. Ninguém prepara ninguém para esse momento. O coração dispara, a cabeça enche de perguntas, e o instinto manda fazer alguma coisa, qualquer coisa, imediatamente.
A boa notícia é que ajudar de verdade numa crise epiléptica é mais simples do que parece, e boa parte do que se ouve por aí sobre o assunto está errado. Este artigo é um guia direto, para você guardar ou até compartilhar, sobre o que fazer e o que nunca fazer diante de uma crise.
O objetivo, enquanto a crise acontece, é um só: proteger a pessoa de se machucar. Você não vai interromper a crise fazendo nada, e não precisa tentar. Ela costuma passar sozinha, na grande maioria das vezes em poucos minutos.
A imagem que vem à cabeça quando se fala em crise epiléptica costuma ser a de alguém caindo no chão com o corpo todo se sacudindo. Essa forma existe, e é a mais reconhecível, mas não é a única.
Algumas crises aparecem como um episódio breve de “desligamento”: a pessoa para no meio de uma frase, o olhar fica parado por alguns segundos, e depois ela retoma a atividade como se nada tivesse acontecido, sem lembrar do que passou. Outras vezes, a crise se manifesta como movimentos repetitivos e automáticos, como mexer nas próprias roupas ou fazer sons sem sentido, com a pessoa parecendo “ausente”, sem responder direito ao que é dito.
As orientações gerais deste artigo, proteger, afastar objetos de risco, não conter, não colocar nada na boca, marcar o horário, valem para qualquer uma dessas formas. A diferença é que, nas crises mais discretas, o cuidado principal é apenas garantir que a pessoa não se machuque enquanto está desconectada do ambiente, e ficar por perto até que ela volte a se orientar por completo.
Não é preciso fazer mais do que isso. A simplicidade é justamente o que ajuda de verdade nesse momento.

Existem crenças populares muito difundidas sobre crises epilépticas que, na prática, fazem mais mal do que bem. Vale a pena desfazer cada uma delas, de uma vez por todas.
Guardar essas cinco proibições já coloca você à frente da maioria das pessoas quando o assunto é primeiros socorros numa crise epiléptica.
Quando os movimentos param, a crise em si já terminou, mas a recuperação da pessoa ainda está em andamento. Esse período seguinte também merece atenção e paciência.
É comum, e esperado, que a pessoa fique:
Nessa fase, o seu papel é simples: fique perto, fale em tom calmo e baixo, explique com poucas palavras o que aconteceu, e dê tempo para a pessoa se reorientar sozinha, sem pressa. Evite perguntas em excesso ou tentar corrigir imediatamente cada coisa que ela disser de forma confusa. Deixe que ela descanse se sentir necessidade.
Se a pessoa já tem diagnóstico de epilepsia e crises anteriores, e se essa crise seguiu o padrão que costuma acontecer com ela, geralmente não é necessário levá-la a um pronto-socorro. Ainda assim, vale sempre informar quem cuida dela ou quem a acompanha clinicamente sobre o que ocorreu.
Nem toda crise exige uma ida ao hospital. Mas existem situações em que chamar o serviço de emergência não é exagero, é o certo a se fazer. É por isso que marcar o horário do início da crise, como recomendado mais acima, faz tanta diferença: ele ajuda a responder, com precisão, se algum desses sinais está presente.
Procure ajuda de emergência imediatamente se:
Fora dessas situações, uma crise que segue o padrão conhecido de uma pessoa que já tem o diagnóstico costuma ser algo para observar com calma, sem entrar em pânico, e para relatar depois à equipe médica que acompanha o caso. Cada pessoa com epilepsia tem uma história própria, e é sempre essa equipe, que conhece o histórico completo, quem vai orientar o que fazer em cada situação específica.

Alguns contextos específicos merecem um cuidado a mais, mesmo quando a crise em si segue o padrão conhecido:
Posso segurar a pessoa com força para tentar parar os movimentos? Não. Segurar ou conter o corpo com força não interrompe a crise e pode causar lesões, como luxações ou fraturas. O correto é afastar objetos ao redor e proteger a cabeça, deixando o corpo se mover livremente.
É verdade que a pessoa pode engolir a própria língua durante a crise? Não, isso é um mito. É fisicamente impossível engolir a própria língua. Por isso, nunca é necessário colocar qualquer objeto na boca da pessoa durante uma crise.
Posso oferecer água assim que os movimentos parecerem estar diminuindo? É melhor esperar. Só ofereça líquidos, alimentos ou qualquer medicamento por via oral quando a pessoa estiver plenamente acordada, orientada e com controle total da deglutição, para evitar risco de engasgo.
Toda crise epiléptica precisa terminar num pronto-socorro? Não necessariamente. Se a pessoa já tem diagnóstico de epilepsia e a crise seguiu o padrão habitual dela, sem os sinais de emergência descritos neste artigo, muitas vezes não é preciso hospital. Na dúvida, ou diante de qualquer um dos sinais de alerta, procure ajuda de emergência.
Depois de uma crise, a pessoa pode voltar às atividades normalmente em seguida? Costuma ser preciso um tempo de descanso e reorientação antes disso, que varia de pessoa para pessoa. Atividades que exigem atenção plena, como dirigir, devem esperar até a recuperação completa, e essa decisão deve sempre considerar as orientações da equipe médica que acompanha o caso.
Uma crise que parece só um “olhar parado” também precisa dos mesmos cuidados? Sim. Mesmo crises mais discretas, sem quedas ou movimentos bruscos, merecem atenção: afaste riscos ao redor, fique perto da pessoa e espere que ela se reoriente por completo antes de retomar qualquer atividade.
Devo filmar a crise para mostrar ao médico depois? Se for possível fazer isso sem atrapalhar os cuidados de proteção descritos neste artigo, um pequeno vídeo pode ajudar bastante a equipe médica a entender como a crise se manifesta. Mas a prioridade sempre deve ser a segurança da pessoa, nunca o registro.
Presenciar uma crise epiléptica assusta, isso é natural. Mas com essas orientações simples guardadas, você já sabe exatamente o que fazer para proteger a pessoa, e o que evitar para não causar mal sem querer. Esse conhecimento, compartilhado com quem está ao seu redor, no trabalho, na escola, em casa, pode fazer toda a diferença no momento em que for preciso.
Conte conosco.
Dr. Rafael C. L. Maia
Médico Neurocirurgião
CRM-CE 14014
RQE 9200





