Exercício físico no Parkinson: por que é tão importante quanto o remédio

Quando uma pessoa recebe o diagnóstico de Doença de Parkinson, a primeira pergunta costuma ser sobre o remédio. “Qual medicação eu vou tomar? Por quanto tempo? Existe algo melhor?” São perguntas legítimas, e a medicação realmente é uma parte central do tratamento. Mas há uma outra pergunta que, no consultório, eu gostaria que aparecesse com a mesma frequência: “E o exercício, doutor? O quanto isso muda?”

 

A resposta curta é: muda muito. Tanto que, hoje, a literatura científica já permite afirmar com tranquilidade que o exercício físico não é um complemento opcional ao tratamento do Parkinson — ele é parte do tratamento. Ao lado da medicação, do acompanhamento neurológico e, em casos selecionados, da cirurgia, o movimento estruturado é uma das ferramentas mais poderosas que temos para modificar o curso da doença.

 

Neste artigo, vamos entender por que o exercício age no cérebro de quem tem Parkinson, o que a ciência mostra sobre neuroplasticidade, BDNF e dopamina, e como traduzir tudo isso em uma rotina prática e segura.

 

O que está acontecendo no cérebro de quem tem Parkinson

 

Antes de falar do exercício, é preciso entender o que a doença faz. A Doença de Parkinson é causada, em essência, pela perda progressiva de neurônios em uma região profunda do cérebro chamada substância negra. Esses neurônios produzem dopamina, um neurotransmissor — ou seja, uma substância que carrega mensagens entre as células nervosas — fundamental para o controle do movimento.

 

Quando a dopamina cai, os circuitos motores deixam de funcionar com a precisão de antes. É aí que aparecem o tremor de repouso, a rigidez muscular, a lentidão dos movimentos (chamada bradicinesia) e, mais tardiamente, a instabilidade postural. Sintomas não motores — alterações do sono, do humor, do olfato e da função intestinal — também fazem parte do quadro, e muitas vezes começam antes mesmo do tremor.

 

A medicação, especialmente a levodopa, repõe a dopamina que está faltando. Funciona, e funciona bem. Mas ela não retarda a progressão da doença em si. O cérebro continua perdendo neurônios. E é exatamente neste ponto que o exercício entra com algo que o remédio não consegue oferecer.

 

Por que o exercício é diferente: o conceito de neuroplasticidade

 

O cérebro adulto, durante muito tempo, foi visto como uma estrutura fixa. Hoje sabemos que ele é, na verdade, profundamente moldável — ele cria conexões, fortalece circuitos usados e enfraquece os pouco utilizados, ao longo de toda a vida. Esse fenômeno se chama neuroplasticidade.

 

No Parkinson, a neuroplasticidade tem um papel especial. Mesmo com a perda de neurônios dopaminérgicos, o cérebro pode reorganizar circuitos remanescentes para compensar parte do prejuízo. O exercício é, hoje, o estímulo mais bem documentado para acionar essa reorganização.

 

Estudos com técnicas de neuroimagem mostram mudanças concretas no cérebro de pacientes que se exercitam regularmente. Pesquisadores observaram aumento da atividade da estriado ventral e maior liberação de dopamina no núcleo caudado em pacientes submetidos a programas de exercício aeróbico. Em outras palavras: o cérebro responde ao movimento usando melhor a dopamina que ainda tem disponível, e fortalecendo as conexões que ainda funcionam.

 

Um estudo recente de 2025, publicado em uma revista internacional de reabilitação neurológica, avaliou pacientes com Parkinson submetidos a 12 semanas de treino aeróbico intervalado e demonstrou aumento dos níveis de BDNF, melhora da função motora e sinais de neuroplasticidade observáveis em PET/CT e eletroencefalograma. É um resultado relevante, ainda que com amostra pequena, e converge com vários outros trabalhos da última década.

 

BDNF: o “fertilizante” dos neurônios

 

O BDNF (sigla em inglês para fator neurotrófico derivado do cérebro) é uma proteína produzida pelo próprio sistema nervoso. Pense nele como um adubo natural para os neurônios: ele estimula a sobrevivência das células nervosas existentes, favorece o crescimento de novas conexões e protege contra processos degenerativos.

 

No Parkinson, isso importa por uma razão muito específica. Modelos experimentais mostram que o BDNF tem efeito protetor sobre os neurônios dopaminérgicos — justamente o tipo celular que está sendo perdido na doença. Quando se bloqueiam os receptores de BDNF, a perda neuronal piora. Quando os níveis de BDNF aumentam, há indícios de proteção.

 

E o que aumenta o BDNF de forma consistente em humanos? Exercício físico. Revisões sistemáticas e meta-análises publicadas em revistas como Brain Sciences e Translational Neurodegeneration mostraram que o treinamento aeróbico regular eleva os níveis sanguíneos de BDNF em pacientes com Parkinson, com paralelo de melhora clínica em escalas motoras como a UPDRS-III.

 

É importante uma ressalva honesta aqui: a maioria desses estudos ainda envolve amostras relativamente pequenas, e o nível geral de evidência pela classificação GRADE é considerado baixo a moderado. A direção dos achados, porém, é consistente. E, do ponto de vista prático, não há motivo razoável para esperar “a prova definitiva” — exercício seguro e bem orientado tem benefícios amplamente documentados, com risco muito baixo.

 

O que o exercício faz, na prática, para o paciente

 

Traduzindo a ciência para o que o paciente sente no dia a dia, o exercício regular pode oferecer:

  • Melhora da marcha e do equilíbrio, com redução do risco de quedas — uma das maiores preocupações no Parkinson avançado.
  • Redução da rigidez e aumento da amplitude de movimento.
  • Melhora da bradicinesia, com movimentos mais fluidos e ágeis.
  • Benefícios em sintomas não motores: humor, sono, constipação intestinal e função cognitiva.
  • Mais autonomia para atividades cotidianas — vestir-se, cozinhar, dirigir, brincar com os netos.

 

Há também evidências epidemiológicas de que pessoas fisicamente ativas ao longo da vida têm menor risco de desenvolver Parkinson. Isso não significa que o exercício “previne” a doença de forma garantida, mas sugere que ele atua como um fator protetor relevante.

 

Quais tipos de exercício funcionam — e em qual dose

 

Aqui é onde muitos pacientes se perdem. “Caminhar todo dia ajuda?” “Posso só fazer alongamento?” “Musculação é seguro?” A resposta é que não existe um único exercício mágico. Existe um conjunto de modalidades que, juntas, formam um programa completo – e todas devem ser feitos sob orientação apropriada, como a educadores físicos e fisioterapeutas.

 

As recomendações da Parkinson’s Foundation, em parceria com o American College of Sports Medicine, organizam o exercício no Parkinson em quatro domínios:

 

  1. Exercício aeróbico. A recomendação é de pelo menos 3 dias por semana, com 30 a 40 minutos de atividade contínua ou intervalada, em intensidade moderada a vigorosa. Estudos com bons resultados clínicos usaram alvos de 60 a 80% da frequência cardíaca de reserva, ou uma percepção de esforço de 14 a 17 em uma escala de 0 a 20. Caminhada rápida, bicicleta, esteira, natação, dança e elíptico são boas opções.

 

  1. Treinamento de força (resistência). De 2 a 3 dias não consecutivos por semana, com 10 a 15 repetições por exercício, focando os grandes grupos musculares. A força ajuda a preservar a postura, prevenir quedas e manter a independência funcional.

 

  1. Equilíbrio, agilidade e tarefas múltiplas. De 2 a 3 vezes por semana, idealmente integrados ao dia a dia. Tai chi, yoga, dança e exercícios específicos de equilíbrio têm evidência consistente. O Pilates pode ser uma boa opção quando bem orientado.

 

  1. Alongamento. De 2 a 3 vezes por semana, ou diariamente quando possível. Combate a rigidez característica da doença e mantém a amplitude articular.

 

A meta global, hoje, é de pelo menos 150 minutos semanais de atividade moderada a vigorosa, distribuída ao longo da semana. Pesquisas da própria Parkinson’s Foundation sugerem que pacientes que fazem ao menos 2,5 horas de exercício por semana mostram declínio mais lento na qualidade de vida ao longo dos anos.

 

Uma observação técnica importante: no Parkinson, é comum haver disautonomia — disfunção do sistema nervoso autônomo — que altera as respostas da frequência cardíaca ao esforço. Por isso, em muitos casos, vale mais usar a percepção de esforço como guia do que a frequência cardíaca isolada. Esse é o tipo de detalhe que se ajusta com a equipe que acompanha o paciente.

 

A importância da intensidade

 

Por muito tempo, recomendou-se que o paciente com Parkinson fizesse “atividade leve”. Hoje, sabemos que essa recomendação ficou para trás. Os estudos mais robustos da última década — incluindo trabalhos como o SPARX e o Park-in-Shape — mostraram que a intensidade importa. O exercício moderado a vigoroso parece ter efeitos neuroplásticos superiores ao exercício leve, especialmente nas fases inicial e intermediária da doença.

 

Isso não significa que todo paciente precisa correr maratona. Significa que, quando há condições clínicas para isso, o esforço deve ser real — o suficiente para deixar a respiração ofegante, o coração mais acelerado, a sensação de que houve um treino. Trabalhar dentro da zona de conforto absoluto não produz os mesmos ganhos.

 

Em pacientes em fases mais avançadas, ou com outras condições clínicas associadas, a intensidade precisa ser cuidadosamente individualizada. Aqui, o acompanhamento de um educador físico ou fisioterapeuta com experiência em Parkinson faz uma diferença enorme.

 

Quando começar a se exercitar

 

A resposta mais honesta é: ontem. Quanto mais cedo o paciente incorpora o exercício à rotina, melhor. Há indícios crescentes de que iniciar atividade física logo após o diagnóstico — ou mesmo na fase pré-clínica, quando há suspeita — pode influenciar a trajetória da doença.

 

Mas isso não significa que paciente em fase intermediária ou avançada não se beneficia. Os ganhos são possíveis em qualquer estágio. O que muda é o tipo, a intensidade e a supervisão necessária.

 

Idealmente, o exercício é feito durante os períodos on — ou seja, quando a medicação está fazendo efeito e os sintomas motores estão controlados. Isso permite treinar com mais segurança e melhor desempenho.

 

Quando indicar avaliação médica e da equipe multidisciplinar

 

Antes de iniciar um programa de exercícios, especialmente se houver outras condições — doença cardiovascular, osteoporose, alterações ortopédicas, quedas recentes —, é importante uma avaliação clínica. Sinais que merecem atenção antes de começar ou intensificar a atividade física incluem:

 

  • Dor torácica ou falta de ar desproporcional ao esforço.
  • Quedas recorrentes ou episódios de congelamento da marcha (freezing).
  • Tonturas ou desmaios, especialmente ao ficar em pé.
  • Variações importantes da pressão arterial.
  • Dor articular ou lombar persistente.

No consultório, costumamos recomendar avaliação com fisioterapeuta especializado em distúrbios do movimento e, quando indicado, com educador físico treinado em Parkinson. Eles vão construir um programa adaptado ao estágio da doença, às comorbidades e aos objetivos do paciente. Essa não é uma extravagância — é a forma de garantir que o exercício seja eficaz e seguro.

 

O exercício não substitui o remédio. E o remédio não substitui o exercício.

 

Esse é talvez o ponto mais importante deste texto. Existe, em alguns círculos, uma narrativa de que “o exercício pode substituir o remédio” no Parkinson. Isso não é verdade, e propagar essa ideia faz mal a quem precisa de tratamento.

 

O exercício potencializa o tratamento medicamentoso, modula a doença em níveis que a medicação não alcança, e dá ao paciente protagonismo sobre o próprio quadro. Mas ele não repõe a dopamina perdida da mesma forma que a levodopa, e não controla sintomas instalados com a mesma rapidez.

 

A combinação — medicação adequada, exercício estruturado, acompanhamento neurológico regular e, em casos selecionados, terapias avançadas como a estimulação cerebral profunda — é o que oferece os melhores resultados de longo prazo. Cada caso é individual, e o ajuste fino dessa combinação é precisamente o trabalho que profissionais especializados fazem.

 

Conte conosco.

 

Dr. Rafael C. L. Maia

Médico Neurocirurgião

CRM-CE 14014

RQE 9200