A doença de Parkinson é uma das condições neurológicas mais comuns depois dos 60 anos — e também uma das mais cercadas de dúvidas. Muita gente a associa apenas ao tremor, mas o Parkinson é bem mais do que isso, e as opções de tratamento evoluíram enormemente nas últimas décadas.
Nesta página você vai entender, em linguagem simples, o que é a doença, como ela se manifesta, como é feito o diagnóstico e quais são os tratamentos disponíveis — incluindo a estimulação cerebral profunda (DBS), a área a que mais me dedico. A ideia é que, ao final da leitura, você tenha um panorama claro e consiga conversar com mais segurança sobre o próximo passo.
O que é a doença de Parkinson
A doença de Parkinson é uma doença neurodegenerativa, ou seja, que envolve a perda gradual de um grupo específico de neurônios do cérebro. Essas células, localizadas numa região chamada substância negra, são responsáveis por produzir dopamina — um mensageiro químico essencial para o controle dos movimentos.

À medida que a dopamina diminui, o cérebro passa a ter dificuldade para coordenar os movimentos de forma fluida e automática. É isso que explica os sintomas clássicos da doença. Vale reforçar um ponto importante: Parkinson não é sinônimo de perda de memória, nem uma consequência inevitável de envelhecer. É uma condição específica, com diagnóstico e tratamento próprios, e que hoje pode ser muito bem acompanhada.
Sintomas: muito além do tremor
Os sintomas do Parkinson costumam começar de forma discreta e, com frequência, de um lado só do corpo. Os quatro sinais motores mais característicos são:

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Tremor de repouso: aquele que aparece com a mão parada e tende a diminuir durante o movimento.
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Lentidão dos movimentos (bradicinesia): tarefas simples passam a exigir mais tempo e esforço.
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Rigidez muscular: a sensação de músculos endurecidos ou “presos”.
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Instabilidade postural: alterações do equilíbrio, que costumam surgir em fases mais avançadas.
Mas o Parkinson tem também sintomas não motores, que muitas vezes aparecem anos antes do tremor e são bem menos lembrados: alterações do olfato, prisão de ventre, distúrbios do sono, mudanças de humor como ansiedade e depressão e, em fases mais tardias, alterações da memória e da atenção. Reconhecer esse conjunto ajuda a enxergar a doença por inteiro, e não apenas pela parte visível.

O que causa o Parkinson
Na maioria dos casos não há uma causa única e identificável. O Parkinson resulta de uma combinação de fatores genéticos e ambientais que, ao longo do tempo, contribuem para a perda dos neurônios produtores de dopamina.
A idade é o principal fator de risco — a doença é mais frequente a partir dos 60 anos, embora existam formas de início precoce. Histórico familiar também é relevante (especialmente em pacientes mais jovens), e a exposição a certas substâncias também são estudados, mas não há nada definido de forma definitiva. Ainda assim, é importante saber: na grande maioria das vezes o Parkinson não é hereditário de forma direta, e ter um familiar com a doença não significa que você necessariamente irá desenvolvê-la.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico do Parkinson é essencialmente clínico. Isso quer dizer que ele se baseia, sobretudo, na história do paciente e no exame neurológico — não existe um único exame de sangue ou de imagem que “feche” o diagnóstico sozinho.
Durante a avaliação, observo a presença e a combinação dos sinais motores, o modo como surgiram e evoluíram e a resposta aos medicamentos. Exames de imagem, como a ressonância magnética, costumam ser usados para descartar outras condições que podem imitar o Parkinson. Em casos selecionados, exames mais específicos ajudam a esclarecer o quadro. Esse cuidado é fundamental, porque nem todo tremor é Parkinson e nem toda lentidão de movimento tem a mesma causa.
Tratamentos disponíveis
O tratamento do Parkinson é individualizado e evolui junto com a doença. O objetivo não é apenas controlar sintomas, mas preservar a autonomia e a qualidade de vida ao longo dos anos.
Medicamentos
A base do tratamento é medicamentosa. O remédio mais conhecido e eficaz é a levodopa, que repõe de forma indireta a dopamina que está em falta. Existem também outras classes de medicamentos, usadas isoladamente ou em combinação, conforme a fase da doença e o perfil de cada pessoa. Bem ajustados, esses remédios costumam controlar muito bem os sintomas, especialmente nos primeiros anos.
Terapias de reabilitação
Fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e, sobretudo, a prática regular de exercícios físicos têm papel comprovado no manejo do Parkinson. Não substituem o tratamento medicamentoso, mas somam de forma importante para manter a mobilidade, a fala e a independência no dia a dia.
Quando os medicamentos já não bastam
Com o passar dos anos, é comum que o efeito dos medicamentos fique menos previsível. Surgem as chamadas flutuações motoras — períodos em que o remédio faz efeito alternando com períodos em que ele falha — e os movimentos involuntários (discinesias). Quando isso acontece e o ajuste dos remédios já não resolve, entram em cena os tratamentos avançados, entre eles a estimulação cerebral profunda.
Estimulação Cerebral Profunda (DBS)
A estimulação cerebral profunda, conhecida pela sigla DBS (do inglês deep brain stimulation), é um dos tratamentos mais importantes para o Parkinson em fase mais avançada — e é a área a que mais me dedico.
O que é e como funciona
O DBS consiste em posicionar, em pontos muito precisos do cérebro, finos eletrodos conectados a um pequeno gerador de impulsos — semelhante a um marca-passo — implantado sob a pele. Esse sistema envia estímulos elétricos contínuos e ajustáveis que ajudam a reorganizar os sinais cerebrais responsáveis pelos sintomas motores.

Dois pontos merecem destaque. Primeiro: o DBS não destrói o tecido cerebral — ele modula a atividade elétrica, e os parâmetros podem ser regulados ao longo do tempo. Segundo: é um tratamento ajustável e reversível, no sentido de que a estimulação pode ser aumentada, reduzida ou desligada conforme a necessidade de cada paciente.
Quem pode se beneficiar
O DBS não é indicado para todas as pessoas com Parkinson, e a seleção adequada é o fator que mais influencia o resultado. De modo geral, os melhores candidatos são pessoas que:
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Têm diagnóstico bem estabelecido de doença de Parkinson (e não de outras condições parecidas).
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Já apresentaram boa resposta à levodopa em algum momento do tratamento.
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Convivem com flutuações motoras ou discinesias difíceis de controlar só com remédios, ou com tremor que não responde bem à medicação.
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Não têm comprometimento cognitivo importante nem quadros psiquiátricos não controlados.
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Estão em condições clínicas adequadas para o procedimento.
Por isso a decisão nunca é tomada de forma isolada: ela envolve uma avaliação multidisciplinar, com neurologista, neurocirurgião e outros profissionais, para pesar com cuidado os benefícios esperados em cada caso.
Como é o processo
De forma resumida, o caminho costuma ter três etapas: uma avaliação criteriosa para confirmar a indicação; o implante do sistema de estimulação; e, em seguida, o período de programação, em que os parâmetros são ajustados aos poucos, em consultas, até se encontrar a melhor regulagem para aquela pessoa. Esse acompanhamento continuado é parte essencial do tratamento — o DBS não termina no dia do procedimento, ele começa ali.
O que esperar (e o que não esperar)
Quando bem indicado, o DBS pode reduzir de forma expressiva as flutuações, o tremor e a rigidez, e com frequência permite reorganizar as doses de medicamento. É importante, porém, ter expectativas realistas: o DBS controla sintomas e melhora a qualidade de vida, mas não cura a doença nem interrompe a sua progressão. Os resultados variam de pessoa para pessoa — e é justamente por isso que a conversa individual e a avaliação cuidadosa importam tanto.
Para onde a ciência está caminhando
A área de DBS está entre as que mais avançam na neurocirurgia. Uma das novidades mais recentes é o DBS adaptativo, aprovado nos Estados Unidos em 2025, capaz de ajustar a estimulação em tempo real conforme a própria atividade elétrica do cérebro. Outra fronteira é o ultrassom focalizado guiado por ressonância, uma técnica sem cortes que, no exterior, vem sendo aprovada para tratar sintomas do Parkinson e do tremor. São avanços que acompanho de perto e que reforçam algo animador: as opções para quem convive com Parkinson só tendem a crescer.

Quando procurar um neurocirurgião
Nem toda pessoa com Parkinson precisa de cirurgia — a maioria é acompanhada, por muitos anos, apenas com medicamentos e terapias de apoio. Ainda assim, vale buscar uma avaliação especializada quando o efeito dos remédios começa a oscilar ao longo do dia, quando surgem movimentos involuntários incômodos, quando o tremor resiste à medicação ou quando há dúvidas sobre o próprio diagnóstico. Uma avaliação no momento certo ajuda a enxergar todas as opções — inclusive as que vão além dos remédios.
Dúvidas frequentes
O DBS cura o Parkinson?
Não. Nenhum tratamento disponível hoje cura a doença de Parkinson. O DBS e os medicamentos atuam no controle dos sintomas e na qualidade de vida, o que pode fazer uma diferença muito grande no dia a dia.
Quem faz DBS para de tomar remédio?
Nem sempre. Em muitos casos é possível reduzir as doses depois do DBS, mas a medicação em geral continua fazendo parte do tratamento, agora de forma mais equilibrada.
A estimulação é permanente?
O sistema fica implantado, mas a estimulação é ajustável e pode ser regulada ou desligada. Os parâmetros são revistos periodicamente para acompanhar a evolução da doença.
Todo tremor é Parkinson?
Não. Existem várias causas de tremor, e uma das mais comuns, o tremor essencial, é diferente do Parkinson. Por isso o diagnóstico correto é tão importante antes de qualquer decisão de tratamento.